quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Passageiros em Trânsito





Um índio peruano atravessa lentamente, numa velha bicicleta, a imensa solidão do Sul de Angola. O que faz ali? Um diplomata angolano desaparece em Brasília como se nunca tivesse existido. Terá realmente existido? Na ilha de Moçambique um estranho estrangeiro tenta esquecer quem foi para melhor ser esquecido. Conseguirá eludir o passado? São Passageiros em Trânsito (como todos nós), mas nenhum conhece realmente o seu destino.


















Um ciclista








"O mundo é infinito para quem viaja a pé...eu viajo a pé, à boleia de algum camião ou de bicicleta. Andando de camião ou bicicleta, o mundo parece um pouquinho menor, mas ainda assim digo-lhe meu bom amigo - É uma imensidão.
Não tenho muitos estudos. Aprendi a ler, e a contar pouco mais. Raramente leio o quer que seja. Quando encontro algum jornal lanço uma vista de olhos à página da necrologia, como não conheço ninguém, como ninguém espera por mim em parte alguma, choro pelos desconhecidos, aqueles que me parecem mais simpáticos. Vou pelo semblante entende? Isto se a fotografia do defunto estiver bem impressa ou então pelo nome - Há sempre algum José por quem chorar."









"O passado é como o mar - nunca sossega..."
“O meu pai dizia-me:
- A vida é uma corrida, meu filho. Quem olha para trás enquanto corre arrisca-se a tropeçar.
Eu não olho para trás. Avanço por vezes de olhos fechados e tropeço, como os outros, e eventualmente caio, mas não olho para trás. Nunca fui pessoa de cultivar saudades. Não coleciono álbuns de fotografias e jamais guardei pétalas secas entre as páginas de velhos livros. Sigo sempre em frente. Quando me perguntam para onde vou encolho os ombros. Rio-me:
- Adiante”




"Fiz um esforço para afastar o sono. Preferia estender-me na cama e adormecer de novo. Tenho sonhos tristes. Às vezes choro enquanto durmo. Só choro, aliás, enquanto durmo. Todavia a luz, lá fora, era ainda mais triste do que as sombras dos meus sonhos mais tristes."


























“Não deixou viúva nem filhos, apenas um papagaio muito velho, rabugento, com ásperas penas cinzentas, chamado Solilóquio.”




Não passamos todos de Passageiros em Trânsito nessa viagem que é a vida.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Ele e Ela

Hoje ele estava lá. Sentado á mesa com o olhar pesado no bife de alcatra com rodelas de batatas doces para acompanhar. Porque para tudo existe uma companhia. Se não partilhada, a vida fica sem graça, e o bife demasiado bife, se não até no mínimo repugnante. E o silêncio, como prato de entrada, preenchia um fragmento de tempo, mais um, solitário e sem apetite. Levantou-se, e com certa elegância, guiou seus passos até á poltrona em frente á janela. Sentia-se velho e inútil. Sentia os anos da poltrona conversarem seu percurso em suas costas, mas que até ela, rota, usada, madura, servia de consolo. Ela servia.

A casa acolheu-o nos meses seguintes, a pretexto de fadiga, todavia há muito que se diga da tal fadiga. Seria fadiga de trabalhar, ou até mesmo de socializar e o entendimento se adaptaria. Contudo a sensação de enfraquecimento, estava mais para o enfado em que o fio do tempo se desfiava, como o constrangimento em comer uma salada se afirma aos olhos de uma confusa, rechonchuda criança. Ele reformara-se de viver. Assim aos Sábados e Domingos, com cara de cigarro, derretia-se de tédio em frente das coisas. E no final do dia, a estante colossal de livros, estacionada á vista desesperançada, de seu outrora leitor assíduo, ganha outros fins. Observa-os, os livros, como que através de uma lupa se sentindo um gestor de nostalgia, embora lhe falte o atrevimento, ou quem sabe, a coragem para pegar e encarar de perto a leitura novamente. Na retina perduram-lhe as imagens do passado e a pele, ainda cheia de lembranças, recorda as vezes, que com amor, abraçou-a por sessenta murmurados e suados minutos. E por ali fica sessenta calados e indolentes minutos, em que a saudade lhe rouba as forças, até cair finalmente, num sono negro, escuro, impenetrável, limpo de imagens. E o dia assim termina entorpecido.

As manhãs, sem que sejam o mais solitário, como as noites são mudas, graças á dança enlouquecida do trânsito á beira das valetas grávidas de lixo, desafiando a morte em cada curva e aos pássaros irritantes, no entanto presenciais, no mundo exterior, ás vozes das famílias do andar de cima e ao flutuar do cheiro a perfumes e panquecas no ar, para ele, eram as mais enfurecedoras e insuportáveis. No primeiro raio de sol, ele acordava para a realidade mastigada e desesperada da tal reforma. O primeiro contacto com a ração diária de conceitos, tendências, ordens da mente e sensações. A primeira apreensão da realidade ou da situação objetiva que é o dia, a vida e ele mesmo. De forma preguiçosa e apática, olhava o tecto á procura da reação adequada. Como que num jogo de percepções, tentava adaptar uma reação ao seu campo de visão, um reconhecimento. Embora quanto mais o fizesse, mais reconhecia sua imperdoável impotência e a memória mais admitia a reprodução daquilo de que não desejava se recordar.

Muito pouco dotado de sentido ou dignidade, partia dos lençóis para a missão básica de seus dias. Matar o tempo. Da cama á escova de dentes, meia dúzia de passos dados, exigiam dele o primeiro balanço do dia, e diante do espelho, já saciado de solidão, sacudia o mutismo, recorrendo a piadas de humor seco, que só seu reflexo de cara forçada, fosse capaz de captar. E não se escutavam gargalhadas. As bem intencionadas gargalhadas serviam apenas de objetivo, já de partida, impossível de concretizar, não fosse parecer ser alguém tão vazio de metas, perante ele mesmo. Era apenas um dos vários detalhes necessários em sua rotina para que se sentisse, principalmente diante de si próprio, mais abatido. Mergulhado em melancolia, podia então iniciar a lista de atividades produtivas das seguintes 24 horas daquele Domingo.

E de repente, como que por milagre, ouve-se 4 batidas coerentes e melódicas na porta de entrada. Não que ele fosse um refugiado, louco ou esquecido da humanidade. Ele tinha família, amigos, pessoas que o mencionavam em conversas de bar, mas suas costas espetadas ao mundo, retraiam do mundo, o esquecimento, a indiferença, o deixar estar. E o milagre não era propriamente as tão inesperadas batidas que o obrigavam a deslocar-se em mais meia dúzia de passos até á entrada de sua toca de hibernação. Ao abrir a porta, não havia cá coisas para assinar, para ler e estava longe de existirem dois Mórmons relatando os segredos da poligamia em tom aborrecido para quem de todo, se considera ateu. Diante de seu olhar cansado, estava uma boca de lábios vermelhos, relutante de palavras, escondendo beijos de ontem. Naquele instante, as veias pulsavam-lhe o espírito, e o coração bailava bêbado. Sua agonia desabara como um boneco de neve. Estereotipando a cena, perita dos filmes de romance franceses, teria sido deveras justo se o destino os abraçasse com fome de horas, momentos perdidos, no entanto a coisa decorreu com um olhar embaraçado, um aceno de leve, um convite para entrar e um silêncio perdurado. Ofereceu-lhe um café preto como ela gostava, mas fazia muito tempo que não o fazia para ela e errara nas colheres de açúcar.

O resultado do relógio nas coisas, é que nenhuma vida, nada é em vão, tudo ganha mais valor, mas esse tudo, exatamente, é efémero. Tudo passa. Em tic-tacs tudo muda, tudo se adapta, tudo se molda. Tudo eventualmente se ajusta ao presente, que logo se torna futuro e quando damos por ela, já largado vai o passado. O tempo é uma mera medida, uma série ininterrupta e eterna de instantes. E perante inevitáveis ajustes, sentaram-se nervosos lado a lado no sofá derrotado da sala de estar, tomando os cafés em gestos mentirosos de quem precisa de se manter acordado. Com tom de força e esforço, tentaram ser o máximo fieis ao sentimento que pelos vistos sobrevivera, por ora, ao síndroma das horas. E de repente, o dia recusava-se a desapontar, e a fronteira que o separava da mulher da sua vida, não passava de uma linha hipotética, que dissociava dois minuciosos apaixonados. Foi então que cuspiu a cerimônia para o ar e a beijou e a abraçou por sessenta suados, intensos e inexplicáveis minutos. Sentiu-se tão pequeno, tão consumido por aquela mulher sinônimo de sedução. A perfeição que se esbanjava num presente que jamais julgou possível, enquanto futuro.

Se encheu de vida, de alegria, de gargalhadas compartilhadas. Se encheu de compaixão pelo tecto, pelos passos, pelo espelho. O almoço nos tachos das donas de casa nas redondezas, tal como o criminoso no corredor da morte, tinha a sua existência contada, perante barrigas famintas conquistadas por aromas requintados. Era hora do bife e da fome. A presença dela, não apenas burlava os fantasmas do tédio, matava-os. E não mais o silêncio pousaria na mesa. Ele, não permitiria que Ela, caísse em saco roto, em saudade, não novamente, pois como aquele momento oportuno, não existiria mais. Decidiu deixar de parte, as recordações de sua reforma, não fosse ele roubar recordações a um homem morto. Depois, entre a arte de cozinhar, do conversar e do bom viver, contemplou as seguintes semanas poéticas no olhar providente dela, repleto de promessas perpétuas ao som de boa música, enquanto inocentemente permitia que os tintos de um bom vinho, fogosos e suaves, lhe subissem do interior até ao sorriso idiota e feliz que se lhe esboçava na cara. Ele estava pronto para imortalizar Domingos daqueles com ela, ao ritmo de um outro relógio, um pulsar dentro do peito, desta, intemporal.

(Ao meu Ele)