quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Sem Paus



Para os amantes da diversão em Maputo, os assíduos e os não tanto, estrangeiros ou moçambicanos, não é novidade para nenhum, quando o assunto é o Rua D´Arte. Presumo que todos se saibam situar e que pelo menos maioria já tenha frequentado o local ou no minimo ouvido falar.
O que muitos desconhecem, porem, é que nos bastidores da Rua mais badalada, ocorrem a poucos metros praticas decadentes, ali do outro lado do pano.

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Uma noite destas, depois de um show meio que fracassado por má organização, eu e os colegas da banda, perdidos entre arrumações do material, atravessamos a cortina, que divide dois cenários opostos, por detrás do DJ para colocarmos o material no carro, este que tinha sido levado a volta, para ficar mais próximo. Para meu espanto, o cheiro insuportável a urina e fezes dominava, requintando o beco escuro, com indivíduos soltos largados no chão de um lado, e bem no fundo, o que parecia serem outros tantos em pé conversando. O clima pesado, estava em silencio afinal. E mirando bem os vultos, cheguei á conclusão nítida e explicita do que se passava daquele lado do pano. O que pareciam homens bebendo cerveja e conversando, era no entanto, nada mais nada menos que uma fila de uns oito homens de cinto aberto e calça na mão olhando desesperadamente para uma porta, relativamente despercebida, semelhante a um buraco escuro, totalmente sujo na parede do meu lado esquerdo. Daquele mesmo buraco, escorria um fio de urina, em grandes quantidades, ao longo de dois degraus, até finalmente chegarem á imunda poça no chão que ali dormia. Os dois degraus eram percorridos numa correria gigante por os que esperavam entrar, e percorridos por uma lentidão porca e nua por os que os desciam, ainda com o pênis erecto á vista de quem estivesse ali, de língua de fora, fechando o zipe da jeans e limpando as mãos na camisa. A parede, essa totalmente acimentada, preta de sujidade, rabiscada, esquecida, albergava apenas a porta e por cima desta, o que parecia ser o nome da balada daquele lado do pano, em letras toscas perdida entre desenhos eróticos...Sem Paus. Um nome suficientemente subjectivo para o que ali se oferece. E ali se oferece sexo. Sexo fácil, desprotegido, rápido, humilhante, perigoso, sujo, a olho nu. Sem porta, o cubículo de quatro metros quadrados, escuro, coloca ao dispor pornografia gratuita, espalhada também no chão entre esteiras e caixotes de cartão. Um tanto perturbador e o suficiente para se sair dali de vez, é a combinação do odor infernal, os gritos agoniantes de uma mulher sendo "violada" por opção, bem mais a alma que o corpo, a cara de gozo dos tais indivíduos ao terminarem o serviço, ejaculando satisfação, batendo ombro com ombro com o próximo que ali vai de seguida entrar e por fim, ver a cara da mulher, amiga, filha, irmã, talvez mãe, depois de mastigar oito ou mais pênis esfomeados, rindo para nós meio que embaraçada por todos aqueles 45 minutos, dando lugar a mais uma amiga, desta com os seus 18 anos no máximo. Uma encenação do ser humano, se destruindo, do ser humano no seu "melhor", promiscuo, pervertido, baixo. Quase que retirado de um filme forçado, a imagem degradada do mundo da prostituição que ali se obtém, á mistura com episódios pontuais de consumo de droga, me fazem questionar, qual a legalidade desses atos nesta terra, será que este país sequer pensa nesses temas? Será que existe alguma política perante mulheres que vivem deste modo, alguma ajuda, alguma educação? A prostituição parece ser legal em Moçambique, e uma escolha própria, mas como aqui, é exatamente em muitos outros países, no entanto muitos, estabelecem políticas relativas ao assunto, como preços mínimos, locais próprios, não sendo permitido praticar atos de prostituição em cada canto, ajudas ao dispôr como instituições, associações de apoio e proteção, etc, etc. Deveria ser uma atividade regulamentada como profissão. Não fosse esta, ser a mais antiga do mundo. Quanto devem receber estas mulheres para se venderem? Será que é dada a devida educação acerca das implicações deste sexo remunerado e as doenças sexualmente transmissíveis que matam o nosso povo? Será que o nosso Moçambique sequer acha anormal descrições como esta? Persiste ainda por cá, infelizmente, uma mentalidade profundamente preconceitualizada e talvez, só talvez, o preciso destas mulheres nesta situação é uma reivindicação duma cidadania na sociedade, ao organizarem-se em tais associações, como profissionais de sexo, gente com direitos, mas com deveres igualmente, para com, e em coletividade.
Não estou aqui defendendo estes atos, ou as mulheres que seguem esse caminho, mas de certa forma, tento chegar a um consenso do que vi, e se não se devia fazer nada. Pois é uma realidade que está ressurgindo em Moçambique significativamente, sem qualquer principio moral ou respeito por regra alguma eticamente aceitável.
O mais certo, é todos estarem de olhos fechados, tanto que, ali a dois metros estão, apesar de uma minoria, cidadãos deste nosso país, incluindo eu, dançando, sem fome, gastando dinheiro, bem mais que "sem paus" em vodca e em entradas para a Rua, totalmente ignorantes do que do outro lado do pano acontece. No final das contas, a mesma rua abraça dois mundos totalmente paradoxos, como que por ironia, de um lado o dinheiro, o estrangeiro, a diversão vazia ao som da música, as luzes, a multidão, a felicidade despreocupada, a auto-degradação mais indireta e fina, do outro, a fome, a decadência, o escuro, a auto-degradação crua e instantânea, os gritos e o silêncio, o obscuro. Sem Paus, é a realidade daquela sociedade daquele lado, meio que camuflada aos olhos de quem está deste lado do pano, mas não deixa de ser uma entre muitas outras tristes realidades do nosso país, e para todos os que ali dançarem e brindarem á vida, nas próximas vezes, lembrem-se que apresar de tapado, estão respirando o mesmo ar, cheirando a urina, estão pisando o mesmo chão imundo, por isso brindem, brindem á vida, que bem ali por detrás do DJ estará alguém vendendo a sua, ganhando a sua, sobrevivendo a sua. O mundo está de cabeça ao contrário, e não podemos fingir que não. Fingir é só o começo da comodidade que nos levará ao abismo.