segunda-feira, 15 de junho de 2009

Oh Mamã África!

Tenho África cravada na pele, tenho África agarrada á vida. Ás costas levo nela, as vivências e as lições, ao colo, levo dela uma filha, no peito histórias de minha meninice. Oh Mamã África! Julguei te pertencer, te idolatrar, mas os anos passaram e o meu embondeiro envelheceu. Está tão grande, tão pesado! No teu solo, as raízes persistem em manter viva essa árvore da minha vida. E são elas, que me salvarão de te esquecer. Mas curiosidade, Mamã África, acabou! Ele se mantém de pé á beira do Zambeze, junto das Micáias, das Acácias, dos Cajueiros. Suas folhas dançam a Marrabenta da amiga Elisa! Aquela que veste a capulana e trabalha na “machamba” de banana-maçã ali perto. Seu tronco aguenta os ventos, as cheias, o calor e a humidade. Oh Mamã África! Sentirei Saudade sim! Mas meu embondeiro está cansado! Quer cair e ir crescer bem longe, noutro lugar! A sua sombra abraça a hora da peneira e do pilão; a “Matapa”; a “xima”; o caril de amendoim. E abriga do calor, os mais “madalas” e os mais “mufanas”. E é para os menos sábios, na hora de aprender, o incentivo ás línguas, á história da sua gente. Onde se senta o “vôvô”, que em “xangana”, mantém vivos os seus antepassados, delirando as crianças com contos, ritos e mitos “cocuanas”. Os animais, a natureza, o povo, a terra; Contos de africanos para africanos e do passado para o mundo, são contos que só África Mãe sabe sangrar. Esses que nem o tempo apaga; esses que mantém a história da pátria amada por contar;
E eu, eu levarei o meu embondeiro nas mãos. No caminho, seja a Indico, seja a Norte, oferecerei seus ramos mais altos e verdes a quem menos te conhece. Oferecerei amarula a quem te queira provar. Assim Mamã África, terei orgulho, terei esperança de despertar curiosidade, para além dos horizontes do Rovuma ao Maputo, sobre o teu poder e a tua beleza. Um dia, em ti, milhões de novos braços plantarão a sua árvore da vida. Serão teus patriotas, teus amantes. E te encaminharão a outros lugares, culturas, a outras savanas e rios. Esses serão os frutos dos seus embondeiros. Unidos; Com força; Vencerão!
Até Muzuko, despeço-me! E em dias de amanhã, regressarei a kaya kamina, de meu pai e minha filha. Quando a saudade superar qualquer outro lugar. Quando o meu sangue me chamar á terra, ao verde, ás paisagens, á pobreza, á humildade, aos animais, ao calor, aos ritmos, á dança, á terra e á vida. Quando sentir necessidade de contar, para assim manter vivos os Meus antepassados e o meu passado. Necessidade de manter viva na minha filha a sua outra mãe; aquela que lhe viu nascer e andou com ela na “neneka”. Minha filha, pedaço teu. Aí sim! Serei khurula em pessoa, e minha tatuagem enrugada, em pele velha de africana emprestada, será o fruto da minha terra gloriosa. Oh Mamã África! Eu vou! Mas eu volto! Espera-me! “Tchovando” a idade e a saudade, regressarei, quando o tempo entre a vida e o depois, for apenas um momento. O momento de acabar onde tudo começou. Voltar a plantar a minha árvore onde a arranquei, para que um dia, alguém conte a sua história, á sombra de muitas outras. Oh Mamã África! És “maningue nice”!

1 comentário:

skaputnik! disse...

Acho que já vi essa Tattoo em algum lado...