segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O Elefante Amarelo


A minha consciência pesa. Remexo os pensamentos bagunçados que moram nesse estado crítico de incoerência, e nada acho. Devem ser muitos, que quase me partem o pescoço. Mas a verdade é que não são tantos assim. São apenas poucos mas discrepantes. O bom retirado de toda essa “absurdó-nia” é que a veia criativa sobe, sobe, vai subindo, penetra-se no neuróneo sensitivo n.º 74.543.980.010 e arrebenta-me o cérebro roto de ideias. Aí, explode-me a cabeça e dela fogem os poucos pensamentos desvairados que tanto pesam para o papel, em forma de febre redigida, que ao infiltrarem-se nas fibras do dito cujo, transformam-se em cores, imaginação, prosas e cigarros. É! Expulsar demónios do organismo requer que a nicotina se apodere dele. A nicotina e as outras “inas”. A Esse fenómeno eu chamo de ‘ina’lação. É uma espécie de exorcismo justo. Sai um entram outras. Penso, pesa, crio ideia, converto pensamento pesado a good feeling, passo-o para o papel, nicotina. Uma vez, o litígio concluído, leio as baboseiras escritas nas linhas acima, enquanto vou cigarrando o relax. Eu sou uma sátira de mim mesma, concluo. Sou uma mente aberta, cheia de ideias aos pulinhos esmigalhando os tais dos 86 bilhões de nêuronios. Com pensamentos pendurados pelos cabelos, todos eles meio queimados. Tudo numa balbúrdia incoerente. A única solução é passá-la para o papel, e acabar lendo um texto nobre-mente desmiolado. O melhor mesmo, é agarrar na folha, enrolar a coitada, e dar-lhe um destino ina-propriado.
Uma hora depois...voltam as dores de pescoço. Tudo isso porque o outro me disse para escrever sobre o elefante amarelo. Afinal esse é que estava pesando saindo da minha cabeça aberta. Eu é que me perdi pelas linhas, desse texto, enquanto me faltou a memória do que estava falando. A culpa foi do elefante amarelo pesado que triturou meu cérebro e pegou fogo com a nicotina da folha de papel enrolada da minha avó!


O que é que eu acabei de dizer?

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Oh Mamã África!

Tenho África cravada na pele, tenho África agarrada á vida. Ás costas levo nela, as vivências e as lições, ao colo, levo dela uma filha, no peito histórias de minha meninice. Oh Mamã África! Julguei te pertencer, te idolatrar, mas os anos passaram e o meu embondeiro envelheceu. Está tão grande, tão pesado! No teu solo, as raízes persistem em manter viva essa árvore da minha vida. E são elas, que me salvarão de te esquecer. Mas curiosidade, Mamã África, acabou! Ele se mantém de pé á beira do Zambeze, junto das Micáias, das Acácias, dos Cajueiros. Suas folhas dançam a Marrabenta da amiga Elisa! Aquela que veste a capulana e trabalha na “machamba” de banana-maçã ali perto. Seu tronco aguenta os ventos, as cheias, o calor e a humidade. Oh Mamã África! Sentirei Saudade sim! Mas meu embondeiro está cansado! Quer cair e ir crescer bem longe, noutro lugar! A sua sombra abraça a hora da peneira e do pilão; a “Matapa”; a “xima”; o caril de amendoim. E abriga do calor, os mais “madalas” e os mais “mufanas”. E é para os menos sábios, na hora de aprender, o incentivo ás línguas, á história da sua gente. Onde se senta o “vôvô”, que em “xangana”, mantém vivos os seus antepassados, delirando as crianças com contos, ritos e mitos “cocuanas”. Os animais, a natureza, o povo, a terra; Contos de africanos para africanos e do passado para o mundo, são contos que só África Mãe sabe sangrar. Esses que nem o tempo apaga; esses que mantém a história da pátria amada por contar;
E eu, eu levarei o meu embondeiro nas mãos. No caminho, seja a Indico, seja a Norte, oferecerei seus ramos mais altos e verdes a quem menos te conhece. Oferecerei amarula a quem te queira provar. Assim Mamã África, terei orgulho, terei esperança de despertar curiosidade, para além dos horizontes do Rovuma ao Maputo, sobre o teu poder e a tua beleza. Um dia, em ti, milhões de novos braços plantarão a sua árvore da vida. Serão teus patriotas, teus amantes. E te encaminharão a outros lugares, culturas, a outras savanas e rios. Esses serão os frutos dos seus embondeiros. Unidos; Com força; Vencerão!
Até Muzuko, despeço-me! E em dias de amanhã, regressarei a kaya kamina, de meu pai e minha filha. Quando a saudade superar qualquer outro lugar. Quando o meu sangue me chamar á terra, ao verde, ás paisagens, á pobreza, á humildade, aos animais, ao calor, aos ritmos, á dança, á terra e á vida. Quando sentir necessidade de contar, para assim manter vivos os Meus antepassados e o meu passado. Necessidade de manter viva na minha filha a sua outra mãe; aquela que lhe viu nascer e andou com ela na “neneka”. Minha filha, pedaço teu. Aí sim! Serei khurula em pessoa, e minha tatuagem enrugada, em pele velha de africana emprestada, será o fruto da minha terra gloriosa. Oh Mamã África! Eu vou! Mas eu volto! Espera-me! “Tchovando” a idade e a saudade, regressarei, quando o tempo entre a vida e o depois, for apenas um momento. O momento de acabar onde tudo começou. Voltar a plantar a minha árvore onde a arranquei, para que um dia, alguém conte a sua história, á sombra de muitas outras. Oh Mamã África! És “maningue nice”!